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O que todos vimos

Por: Dilma Souza Campos 14 de Junho de 2020

Nos últimos dias, muitos ficaram sem entender o que estava acontecendo e de onde todos estes protestos haviam saído.

Resolvi aqui explicar, rapidamente, a conexão entre os acontecimentos que culminaram nos protestos, e que não vão parar até que mudanças efetivas aconteçam.

A peça que deu início a esta onda do efeito dominó foi sem dúvida nenhuma, Amy Cooper.

Já ouviram falar dela? O recente, e lamentável, episódio protagonizado por ela, deu-nos uma grande lição sobre o que lá é descrito como supremacia branca e patriarcado. 

Amy passeava com seu cão, no Central Park, quando, estando em uma área de observação de pássaros, um homem negro solicitou que ela colocasse a guia em seu cachorro.

Até aí tudo certo. Vivemos em uma sociedade onde os direitos são os mesmos para todos e deveres também, mas a lei deve ser seguida por todos. Não é verdade?

Porém, isso se tornou um episódio claro e transparente de racismo estrutural, porque, a diferença dos dias atuais são as imagens, que são gravadas expondo estes momentos. 

Sim, uma coisa é te contar um acontecimento, outra, é você presenciar por meio de imagens como se estivesse na cena.

E foi por conta da imagem, que Amy Cooper ficou enfurecida e escancarou seu viés inconsciente, alegando para a polícia, ao telefone, que estava sendo ameaçada por um homem negro, sendo vítima de assédio, enquanto Christian Cooper continuava apenas a gravar a cena em cima de sua bicicleta.

Após o vídeo ser postado na internet e obter grande repercussão, Amy veio a público pedir desculpas, o que acabou resultando em sua demissão.

No mesmo dia George Floyd foi assassinado.

Uma sequência de fatos e acontecimentos para nunca mais ser esquecida.

E de novo, as imagens que vimos foram dolorosas demais. Vimos Floyd perder a vida diante dos nossos olhos, e por alguém que deveria nos proteger e servir. 

Vimos o policial, que parecia se exibir para as câmeras, com seu joelho em cima de um homem negro que não oferecia resistência, como se estivesse gostando do momento e sem o menor remorso. O mundo não estava lá, mas todos vimos.

Chorei, e chorei muito, inconsolável, para tentar entender tamanha violência. Uma violência incompreensivelmente gerada pela cor da pele.

Outra morte vem à tona, e ela é anterior a de Floyd e ao episódio do Central Park, envolvendo Cooper.

Breona Taylor, enfermeira, morre em seu apartamento, vítima de uma investigação que se utilizava de um “mandado sem aviso”.

Mais de cem mil mortos por Covid-19, e, pela primeira vez, o país apresenta um número superior de desempregados comparado ao Brasil. E esta foi a primeira vez que isso aconteceu na história.

Cada um destes fatos gerou um trigger, que culminou em todas as manifestações que o mundo assistiu e aderiu.

Um fato inédito na história mundial.

Pela primeira vez o crime não ficou impune e também não esperou por um desfecho.

Imediatamente após a apuração inicial dos fatos, os policiais foram demitidos e um deles acusado de homicídio. Além disso, o FBI foi designado para apurar o caso Breona.

Eu fico pensando o que mostra tudo isso? Como estes fatos se conectam, o que podemos fazer para impedir que isso aconteça?

Não vivo na realidade dos EUA, mas vivo na realidade do Brasil, e ela é mais dura ou pior.

Somos 52% da população e não estamos refletidos na sociedade.

Somos maioria nas prisões e minoria nos escritórios.

Os números do monitor da violência apresentam alta de 8% nos dois primeiros meses de 2020. De acordo com a ferramenta, houve 7.743 mortes violentas, enquanto no mesmo período do ano passado, foram 7.195. Mortos com maioria absoluta de pessoas negras.

Precisamos mudar!

E para isso, temos que investir em educação, e em uma educação que seja antirracista. Precisamos eliminar os vieses inconscientes e poder caminhar saindo do mesmo lugar, sem privilégios para ninguém. Ou privilegiado para todos.

Precisamos de ações afirmativas, ações que de fato queiram mudar o rumo e a velocidade dos acontecimentos.

Temos muitas questões pela frente e não posso deixar de falar sobre o fato de a maioria dos casos de mulheres assassinadas, não reverberarem como deveriam. 

A brutalidade policial enfrentada pelas mulheres negras, recebem menos atenção, política e da mídia, constituindo uma dupla discriminação, de gênero e racial.

Todos vimos acontecer.

O que precisamos mudar são nossas percepções das relações.

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